Uma carta que você não recebeu. (Dia dos Pais)

8 de agosto de 2010
            Minha mãe sempre foi tudo o que eu precisei, sempre me educou e fez de mim uma criança feliz. Nunca me faltou nada, nada além de um pai. Quero dizer, até os 7 anos eu tive um pai. Os meus 7 anos funcionaram como um divisor de águas, talvez não o único, mas certamente o primeiro. Aos 7 anos conheci você e perdi meu pai, tudo bem que você deve estar se perguntando: “O que é que você está querendo dizer?”. Mas, no fundo, ainda que bem no fundo, quase com a profundidade da mágoa que eu carrego de você – você sabe o que eu quero dizer. O meu pai, não, não é você, embora o exame (desnecessário) de DNA prove que o sangue que corre nessas tuas veias imundas é o mesmo que corre pulsante aqui também, talvez por ódio, talvez porque seja minha única opção. O que eu quero dizer é que até meus 7 anos de idade a pessoa que representou o papel de pai no filme da minha vida (merecendo, inclusive, o Oscar) foi meu avô, sim, o senhor Antônio Pereira Dias, o maior amor que eu tive, o maior amor do mundo. Mas, será que você sabe o que é amor? É vida, exatamente aquilo que você tentou roubar de mim, mas que a Mulher Da Minha Vida (sim, assim com letras maiúsculas) me deu direito e mais de uma vez. Só que é óbvio que você não sabe das outras vezes, afinal, você deu o fora na primeira.
            Aos 7 anos eu conheci você, na porta de um bar, você me chamando – penso hoje, que possivelmente de forma irônica – de “filhinha”, eu me lembro embora o melhor fosse esquecer. E no dia 7 de Abril deste ano (2010) você me viu de novo e nem para dizer “Bom dia, idiota” você se prestou. Não pense que me fez falta. Não, não fez. Porque você não sabe, mas eu tenho pessoas incríveis na minha vida. Pessoas, que ao contrário de você dariam a vida por mim. E deixando a modéstia de lado (talvez, esse seja o único ponto que nós temos em comum, a falta de modéstia), eu também sou uma pessoa incrível, especial e muito amada, tenho caráter (de você não posso dizer o mesmo), inteligente, teimosa e justa, muito justa. E de você, tenho pena. Porque carinho, amor, afeto, atenção e outras coisas que os bons pais dão as suas filhas, eu não preciso. O espaço que havia dentro de mim e há em toda filha que se preze, foi ocupado por outras coisas, por pessoas e sentimentos bons.
            Para mim, você não é nada senão um cogumelo. Um pobre coitado que perdeu a grande chance da sua vida de ser amado, de poder correr para o meu abraço quando precisasse ou ser o primeiro a saber: “Vou me casar”, “Estou grávida”, “Fui promovida”, “Darei a volta ao mundo”. Você não é para mim, nada além de um estranho, que só leva o título de pai (biológico) porque há um documento que diz o mesmo. Aliás, eu deveria dizer que para mim, você é muito pior do que um estranho, pois nada tenho contra os estranhos e tudo tenho contra você. E, mais... Todos os estranhos (exceto você, claro) do mundo têm a chance de que um dia eu goste deles, de que um dia eles venham a me cativar. Portanto, recolha-se em sua insignificância, porque eu sei que a culpa não é de ninguém além de sua. E você não merece nada além do meu desprezo. 

4 Comentários, mas sempre cabe mais um. :):

1G 32 Pâmella Coracim disse...

esse era o texto daqueeeeela vez que eu fui ai? doloroso, mas bonito!

mente inconstante disse...

Desabafo tocante. Meu pai é tudo para mim... minha mãe pelo contrário, é ela quem tem meu desprezo. Saudades daqui. Escrevendo muito bem como sempre! :*

Bruninha disse...

Primeira vez aqui...

TE parabenizo pelo desabafo, vc quem sabe o que tem dentro desse coraçãozinho né?!!

Que Deus te abençõe!!

Tô te add

bjs

Debbys disse...

nem sei se preciso dizer algo... achei espetacular vc dividir isso conosco e fico feliz de ver que isso não foi algo que influenciou seu carater e modo de ver as coisas... fico feliz por vc ser feliz apesar dos pesares!!
saudades de vc! ^^
bjss