E o vento...

21 de novembro de 2009


















Não levou
. A lembrança é permanente.


Três é um número em que o coração nunca se divide. Pude ter certeza disso quando naquela noite, observando as pessoas naquele bar um casal me chamou a atenção. Os olhos tristes dela estavam em outro lugar, ou talvez tão ali que eu não pude entender, dentro de pensamentos íntimos. Anna era possivelmente o nome dela. Ele tinha um quê de Frederico e era, ela gritou Fred. O tom de voz dele estava notavelmente chateado, conturbado. Como quem desejava, necessitava, exigia ser amado e definitivamente não era, pude perceber tudo isso quando ela foi se levantar para cumprimentar duas pessoas que haviam acabado de chegar no ambiente e ele a segurou pelo braço, de maneira grosseira, quis me meter mas não era possível. Cupidos não tocam em ninguém, miram suas flechas apenas de longe e o que tiver de ser, certamente será. Agora estou me recordando, era Anna o nome dela, era sim. Que memória horrível a minha. Mas depois de sentir o braço seguro de forma grosseira em meio a mão grande dele, ela olhou para trás, os dois se aproximavam e ela murmurou: Me solta... Tão baixo que talvez ele não a tenha ouvido, leitura labial era algo impossível pois era escuro o ambiente, os cochichos e a banda tocando ao fundo não ajudavam em nada na audição, eu garanto porque estava lá a procura de outras vítimas. Mesmo sem ouvir o que ela havia dito e nem ter percebido que a Anna, loura dos cabelos curtos e sorriso atraente, havia dito ele perguntou: Você o ama, ainda o ama não é? Num único movimento, brusco como haveria de ser ela se soltou dele, titubeou em dar a resposta. Ela não era do tipo que gostava de machucar, não queria iludir, não queria mentir. Naquele momento quis se enfiar no meio daquele mundaréu de gente e partir, sem ao menos dizer adeus. Mas, essa não era a educação que ela havia recebido de seus pais. Ah, seus pais! Vítimas minhas, das antigas. Do tempo que eu não errava uma, assunto pra outra história. Frederico ainda tinha uma última esperança, que em meio aqueles lábios suculentos saísse um, só um: Não. O esqueci desde que te vi. E foi com uma frase, que ela matou a última esperança, não sei se parecia um soco brutal ou um tiro falta, mas foi só assim: Sim, o amo. E a alma dele murchou de uma vez só, pude ver ainda que de longe, coitado. Um mal amado a minha espera, só mais um. Só? Além de desmemoriado estou ficando maluco, existem tantos nesse mundo de meu Deus. Eu pude ver também um nó subir pela garganta dela, ela não queria ter feito aquilo. Não era de fato o gênero dela, tão meiga e tão mulher. Estonteante, estonteante sim. Se eu não fosse cupido e não soubesse que essa história de tampa da panela existe mesmo, eu estaria acidentalmente apaixonado por Anna, naquela noite. Mas, cupidos são as frigideiras, sem tampas, sem sexo, sem sorte. Escrevo tudo no masculino porque não deu vontade de escrever no feminino, tão simples. Anjos, cupidos e arcanjos não têm sexo feminino ou masculino, não se esqueça querido, ou querida? Você tem, não tem? Voltando a querida, encantadora, fascinante e maluca Anna, esses são adjetivos que ali só cabiam a ela, tanta gente vazia que eu tive vontade de correr daquele lugar imundo, imundo de gente e não de limpeza, ah! Vocês humanos nunca me entendem. E a culpa sempre é minha. Sempre me zoam. Ah, humanos. Anna o amava tanto e quando o viu ali, vestido com aquela roupa fina, tão linda, ficou maluca. Saiu andando na direção dele, como se fosse ao toalett, não daria o braço a torcer e quando finalmente se esbarraram olhou com cara de espanto (Anna, ótima atriz): Você por aqui, Jorge? Que bons ventos o trazem? A atuação durou tão pouco tempo, ela não se segurou, o abraçou pra sentir de novo o seu coração bater inteiro dentro do peito, metade dele, metade dela. Jorge afagou os cabelos louros dela, ele também sentia saudade, ele também tinha boas lembranças. Por aí, você já pode ter certeza que às vezes eu ainda acerto, não é? Diga sim, por favor. Meu ego anda tão arruinado ultimamente. Jorge perguntou se ela estava sozinha, mesmo ele não estando. Nem preciso contar que a morena que o fazia companhia (desnomeada, meu bem) não gostou nada do pseudo encontro casual de Jorge com a Ex em meio ao barzinho mais agitado da noite paulistana, não é? Ok, vocês humanos às vezes me compreendem facilmente, grife às vezes. Não é sempre, não mesmo. Anna o amava tanto, o queria tão bem que até seu semblante mudou ao reencontrá-lo, sorria para o nada, para o vazio das pessoas que se encontravam naquele lugar lotado. Fred não conteve o impulso e quando viu que ela ficaria mesmo perto do ex, resolveu convidar o casalzinho vinte e a desnomeada para sentar-se ali. Onde estava Anna e ele anteriormente, foram os quatro. Ele não era má pessoa, conheço milhões de garotas no mundo inteiro que dariam a vida para estar com Fred, não seja hipócrita, você certamente é uma delas. O moço era apresentável, educado e só um pouco grotesco, só quando seu ponto fraco era cotucado. E como mulheres adoram fazê-lo, não? Detesto parecer fofoqueiro, mas às vezes as mulheres falam umas coisas no banheiro que me deixam atordoado, não queira nunca você homem entrar num banheiro feminino, a última coisa que elas falam é sobre futebol. A menos que o astro do momento seja um jogador super-hiper-mega-maxi gostoso, é assim que elas falam, queridinho. Odeia ser chamado assim? Foda-se. Odeio quando me chamam de tantas coisas e vocês nunca param. Foi ao banheiro que Anna e a Morena sem-nome foram, Anna que parecia ter uma pimenta na língua logo cutucou: Tá pegando o Jór? A morena enquanto tirava a maquiagem de dentro da micro bolsa, olhou-a com cara de quem tinha comido pepino estragado: Qual foi, tá com ciúmes? O Fred é um bom partido. Foi o que eu disse, Fred não era qualquer coisa, mas não era o que Anna queria e Anna não se conforma com as coisas pela metade, ou tudo ou nada. E devo ressaltar que a mãe dela também era assim, até que encontrei o encaixe - o pai. Tudo que Anna sabia sobre o amor de homem e mulher ela havia aprendido com Jorge, seu primeiro (e diga-se de passagem, único) amor.
Anna aprendeu a se preocupar, a acordar as três da manhã só pra ler aquela mensagem que ele mandava todas as madrugadas, aprendeu a sorrir com a alma e entender o olhar, por mais rápido que ele fosse, era o suficiente. Aprendeu que namorar o cara certo, nada mais é que beijar e dormir com o melhor amigo, era uma coisa além do que todo mundo pudesse entender e todo mundo sabia. O mais importante que ela havia aprendido era que o amor não era feito de cobranças, não era uma exigência, simplesmente acontecia. Depois é claro da minha flechada fatal, mas nada que os humanos fossem capazes de entender, embora esteja lhes contando agora. E Fred fazia muitas cobranças, exigia ser amado. Coitado. Exigia porque Anna não era pra ele, se fosse não precisaria exigir, eu atiraria a flecha e pronto, seria amado. Não precisa-se de razões para o amor, precisa-se de flecha, mira e só. Vocês que complicam, esperam, exigem, me chateiam e acabam me apressando, fazendo assim que eu só faça coisas erradas (e tome bronca depois, o que me deixa irado.) Não queira nunca ver um anjo irado. As duas bonecas voltaram a mesa e foi quando eu resolvi atacar, Fred já tinha entendido que havia perdido, um a menos. O sorriso de Anna brilhava de orelha a orelha, parecia uma luz em meio aquele lugar escuro. Procurei uma posição boa e, bem só fiz o que deveria ter feito a muito tempo, juntei a morena com o tal do bom partido. Não demorou muito pra conversa fluir, não demorou muito pra Anna começar a rir das piadas do Jór, ah! As piadas do Jór... vieram os suspiros e cada um voltou pra casa sozinho, mas com o coração completo. Como haveria de ser sempre se vocês não complicassem tanto. Vale lembrar que rolou até aquela mensagem no meio da madrugada, eu não li porque é falta de educação, mas deve ter sido bom, ganhei quatro sorrisos e quatro agradecimentos indiretos.

9 Comentários, mas sempre cabe mais um. :):

Nina disse...

lindo, filha... em algumas frases, ME VI!

eu te amo

Marcelo Mayer disse...

deveria ter sorrido beijos!

Erica Ferro disse...

Ah, cara...Adorei esse conto.
Muito fofinho!

E o amor... ah, o amor é natural e, simples, ACONTECE.

Um beijo pra ti.

Natacia Araújo disse...

São nesses encontros e desencontros que a gente se perde mesmo né?
Fiquei encantada.
Adorei!
Beijos!

Gabriela Castro disse...

Que lindoo isso Jô!
Será que o cupido acerta alguém pra mim? rsrs
beijão

Debbys disse...

ahhh, q lindo lindooo
perfeito gente!!
bjusss

Ju Vrech disse...

Joooo. ;)
Mandou bem pra caramba.
Ficou encantador.
Salvei aqui, achei digno. fato!
Tô com saudade de você.. |:

Beeeijo. :*
Amo você. :D

Melancia disse...

esse cupido safadinho.
adoro ele *-*

Luisa disse...

ah, lindo, lindo ! adorei!
você escreve com a alma. um conto muito encantador, que não perde o humor, e nem nos faz perder o interesse.
beijos mil